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"Aliás - descubro eu agora - eu também não faço a menor falta, e até o que escrevo um outro escreveria." (Clarice Lispector - A Hora da Estrela) Oz acordou, mas ficou na cama por um instante. Olhou para o teto branco. Sentiu-se indisposto, mas sabia que tinha que se levantar. Sentou na beira da cama. Olhou em volta. Móveis velhos já eram um banquete para cupins. Velhos livros que de nada lhe serviam abarrotavam as prateleiras. Alguns cds, algumas revistas, cadernos recheados de planos e devaneios, cartas - pensou se tudo aquilo não era lixo e perda de tempo. Sentiu-se como havia se sentido todos os dias já a algum tempo. Morto. Levantou-se e abriu a janela, deixando a luz lhe queimar a retina. Olhou lá fora. Pensou se estava se tornando um Forrester. Por que detestava tanto sair de casa? Sentiu-se fracassado. Olhou-se no espelho. "Atravesse o espelho." Pensou se os cacos de vidro não lhe machucariam. Flávio sonhava. Era um adolescente que gostava mais de passar seu tempo sonhando do que vivendo a angústia da vida real. Tudo parecia uma lama negra. E Mordenkai estava lá, de pé, no topo de uma colina lamacenta. - Venceu o medo e a ilusão, garoto. - E agora vencerei o demônio. - Um demônio é algo que não faz parte de você. Não é difícil me vencer... Mas somente se já tiver vencido a si mesmo. E o Escuro, a quem sirvo neste seu mundo insólito, está dentro de você. Eu vejo. Ele sim,é parte de você e reina dentro desse coração! Ele você não vencerá tão cedo, porque ele é seu espelho, seu reflexo, você ao contrário. - Besteira. O jovem partiu para cima do enorme ser de aparência grotesca, fazendo surgir uma lança do nada e impalando seu inimigo. Viu o demônio cair e queimar num fogo púrpura. "Vitorioso", pensou. Mas as chamas aumentaram e ele viu surgir no meio delas uma sombra. Um pequeno homem, careca e de aparência sombria. - Destruiu um corpo que eu possuía, moleque. Mas ainda não pode matar um demônio! Antes que retomasse a razão, Flávio foi golpeado pelas garras do pequeno demônio, que enfiou sua mão até atingir o coração. O jovem caiu no chão, estático. - Te vejo daqui a 10 anos, garoto. Acordou. Suava. Sentiu vontade de chorar. Depois daquela noite, as coisas só piorariam. Cortou o cabelo e tentou ser uma pessoa normal, mas sentia-se barrado por alguma coisa, sempre. Descobriu um jeito de livrar-se por um certo tempo de toda aquela angústia e trevas. Mudou de nome. Agora chamava-se Oz. Seis dias haviam passado desde aquela estranha audiência e aquela estranha sessão de cinema com filmes sobre sua vida e F. sentiu uma ponta de medo do que poderia lhe acontecer, por mais que não acreditasse em todo aquele surrealismo que vinha tecendo sua vida. - Tem que ouvir. Que acreditar! - disse o velho com o livro na mão, naquela noite. Saiu. Foi até o velho e abandonado apartamento onde já havia morado. Estavam vendendo, mas o mercado não parecia estar favorecendo muito. Entrou e deu uma olhada pelas pareces um pouco judiadas pela umidade e para o chão coberto de pó. Caminhou até seu antigo quarto e olhou para o único móvel que ainda havia ali: um pequeno armário. Abriu e tirou de dentro uma caixa. Dentro, um monte de cinzas e papéis queimados. Fechou os olhos e colocou a mão dentro. De repente, sentiu-se queimar de dentro para fora e uma imensidão de trevas lhe cobriram a mente. Sentiu-se tonto e então perdeu os sentidos. Oz perambulava pela sala vestindo roupas velhas e a barba por fazer. Ia da cozinha para o computador e vice-versa. Seus dias pareciam ser idênticos e intermináveis. Nada parecia lhe agradar. Sentia saudades do filho recém-nascido, mas não tinha forças para sair de casa e ir até vê-lo. Entristeceu-se por ter magoado a quem tanto amava. Sua falta de tato e bom senso havia afastado os poucos bons amigos que tinha. Se sentiu solitário. Ligou a TV. Um filme antigo de Billy Wilder. Mesma música que a ruiva cantou no final do filme de ontem. Lembrou dela. Sentiu-se idiota e ridículo. Precisava trabalhar, mas não sabia para que, não fosse apenas para manter o sustendo do filho. Pensou nos anos, na saúde, na cabeça infantil. Uma música começou a tocar. "Tonight is the end of your way." Sentiu-se estranho. Sabia o que era. Então, do nada sentiu uma pancada na alma, como se estivesse sendo arrebatado. Milhões de imagem lhe passaram pela mente em micro segundos. Tentou gritar, mas não conseguiu. Faltou-lhe o ar. Trevas. Caiu no chão, inconsciente. Abriu os olhos e viu o velho com seu livro lhe olhando de cima. Virou-se e viu a si mesmo garoto, ao lado de um jovem de cabelos compridos e um homem de meia-idade. Todos eram ele. - Bem-vindo, Oz. Viemos salvar você. - disse o velho.
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*melhor visualizado com resolução 1024 x 768 ou superior. ![]() PerfilDead Oz é um zumbi filósofo alienado, como tantos outros que vagam pela Terra, à procura da ressurreição, comendo, bebendo, trabalhando, perambulando entre pingüins e tendo a energia drenada por alieníginas conspiradores pela Internet. Um maluco tentando recuperar um pouco da fantasia que todo mundo parece ter perdido... + Oz
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