quinta-feira, 3 de maio de 2007

Over The Rainbow (What Goes Around Comes Around)

*aviso: bebi café demais hoje! =P

"Pois o seu escolher implica outros valores: A salvação, a sanidade de todo o seu reino e assim seu escolher é limitado pela voz e o aquiescer desse outro corpo de que ele é a cabeça"
(Hamlet - William Shakespeare)


F. cochilou, sem saber que teria uma noite de muitos sonhos intranqüilos.

O garoto parecia assustado, mas determinado. Olhou onde estava e viu-se num corredor de mato pisado, como se uma enorme serpente houvesse passado por ali. Na sua frente, o escuro. Manteve seu corpo frágil de pé e preparou-se. Podia ouvir seu mestre ao fundo.
- Lembre-se, é só um dragão.
- Mas o senhor disse que o dragão negro representava meu medo do que é maior do que eu... - disse o garoto, virando-se para o velho com seus óculos escorrendo pelo nariz.
Já vinha sendo guiado por ele a muito tempo, desde os tempos em que o velho era mais um dragão vermelho do que simplesmente um velho. Lembrou que certa vez perguntou quem ele era, de onde veio, e tudo que ouviu foi "sou só um homem de vidro num mundo de porcelana e alumínio". Odiava quando ele falava em enigmas. Mas não conseguia mais imaginar como tudo teria sido sem sua orientação.
Ouviu um estrondo. Voltou-se para o corredor. "O Escuro", pensou. Não era o Escuro, nem o Nada. Era somente o dragão negro. Seu medo dos medos.
- Lembre-se, garoto. É só um dragão.
Viu surgir diante de sim olhos vermelhos seguidos de um enorme ser de pele ônix. O bicho levantou-se e pairou sobre ele, bufando.

Flávio viu-se numa mata avermelhada e seca, diante da velha casa de madeira. "Estou aqui. Não estou?" - questionou-se. Viu quando ela começou a aparecer no meio da mata. Uma bruxa em longos vestidos negros, com longos cabelos negros. Sentiu-se frio e quente enquanto ela se aproximava. Sentiu-se num limiar. Ouviu vozes ao fundo. "Magia se manipula. O espírito não." O que era aquilo? De onde vinha? Pensou se a adolescência estava lhe enlouquecendo. Seus cabelos compridos caíram sobre os olhos quando olhou para o chão úmido coberto de folhas secas para ver se não estava voando novamente. Olhou para a bruxa. Val. Ela. Sentiu ela murmurando palavras de feitiço.

Oz tentou rir, mas não conseguiu. Não era todo dia que pisava por tijolos amarelos. Pensou no que haveria depois do arco-íris, mas antes que pirasse viu as belas árvores tornarem-se um sangue preto que escorria pelo cenário lúdico. A estrada se dividiu em dois caminhos, e pode ver um velho sentado numa cadeira numa delas. Em seu colo, o livro. Percebeu quem ela era e sorriu.
- Morra, para renascer. - ele disse.
Oz olhou para o outro lado e viu um outro velho se aproximando. Parecia uma espécie de rei, de líder de algum lugar.
- Venha para Esmeralda. Poderemos ser dois com o mesmo nome reinando ali. Renda-se a cidade e ao seu esplendor. Aceite e seja mais um de nós.
- Esmeralda? Não seria somente um vidro verde?
O semblante do velho mudou. Se irritou.

F. viu-se no topo de uma enorme plataforma. Lá embaixo deslumbrava um exército de robôs matando pessoas. Percebeu que estava sangrando e que seu sangue borbulhava. tentou chorar, mas seus olhos se voltaram para o centro da batalha, onde uma mulher e um pequeno bebê estavam cercados por máquinas assassinas. Pensou em intervir, mas soube que não deveria fazer nada. A criança fechou os olhos e então uma explosão de luz, cegando e queimando tudo à sua volta. Sentiu-se queimando e virando cinzas.
- Morrer para renascer. - ouviu uma voz infantil dizendo.

O garoto olhou bem nos olhos do dragão ônix enquanto ela preparava-se para o bote. Então, como se a serpente não esperasse por isso, o garoto golpeou o peito do animal com toda força, enfiando a mão dentro dele e puxando logo em seguida, trazendo entre seus dedos um enorme coração preto como piche. Olhou novamente para os olhos do dragão, que relutava em acreditar.
- O coração do medo está em minhas mãos. O passado muda, o Escuro enfraquece... Você é só um dragão...
Então, sem pestanejar, fechou a mão com toda força que um garoto em terras fantásticas pode ter. O coração espatifou-se e virou cinzas. O dragão queimou e sumiu, mas sua chama botou fogo na mata seca em volta. O garoto viu o velho sumir como fumaça depois de proferir palavras proféticas:
- Esse é só o primeiro obstáculo, criança.
A chama começou a consumir tudo à sua volta.

A bruxa levantou seus braços para enfeitiçar, mas Flávio foi mais rápido, puxando de si um punhal e acertando o peito dela em cheio. Sem acreditar, ela caiu de joelhos, em agonia.
- Mas... Estava escrito...
- Estou reescrevendo, bruxa.
E viu o passado cair morto pelo futuro. A bruxa estava morta.

Oz desviou do cetro do velho que governava a cidade verde e estendeu a mão em direção a ele. O velho começou a pegar fogo, como mato verde que faz muita fumaça e intoxica o ar.
- Oz mata o mágico. - disse o outro velho, sentado na cadeira. - Dorothy terá que encontrar outro jeito de voltar para casa...
Oz ficou sem ar e viu tudo escurecer.
Ambos caíram mortos no chão amarelo.

O garoto não parecia se preocupar com as chamas. Deixou-se queimar.
"Morrer para renascer", pensou.

O jovem Flávio estranhamente sentiu-se morrendo quando viu a bruxa caída ao chão. Quis chorar, mas sabia que nada mais poderia ser feito. Ela estava morta.

A explosão de luz incinerou os pensamentos de F. e ele despertou do sono. Precisava sair. Cine Marabá, 19hs.

F. ainda não pensava em processo, nem em ser feliz. Apenas sabia que sua família era sua escolha. Trancou-se no quarto e pegou tudo que podia sobre ela. Botou tudo numa caixa e saiu. Foi até um terreno baldio, botou a caixa no chão e encharcou-a de querosene. Ateou fogo. Viu tudo queimar. Sentiu-se queimar. Era como se estivesse matando-a. "Morta. Agora ela está morta!" Chorou, como um amante num velório. Sentiu-se morrendo pela milésima vez.
"Morrer para renascer", pensou.

O velho parecia apenas observar o olhar de F. Estavam apenas os dois no cinema, mas F. não parecia disposto a expressar suas emoções. Havia decidido isso anos atrás.
- Lembra dessa cena? - perguntou o velho, enquanto o maduro F. assistia a cena da cremação de sua velha vida na tela.
- Eu a matei. Ela morreu. Essa vida não existe mais.
- Já ouviu falar no mito da Fênix? Às vezes o que vai volta. Às vezes por que é assim que devem ser as coisas, às vezes por que queremos, às vezes por que precisamos...
F. olhou para o velho, silenciosamente.
- Você é do futuro, não é?
- Isso importa?
Olhou para a tela.
- Isso é um chamado?
- Só se chama quem ouve.

postado por Oz (The Dead) às 10:50 AM





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Perfil

Dead Oz é um zumbi filósofo alienado, como tantos outros que vagam pela Terra, à procura da ressurreição, comendo, bebendo, trabalhando, perambulando entre pingüins e tendo a energia drenada por alieníginas conspiradores pela Internet. Um maluco tentando recuperar um pouco da fantasia que todo mundo parece ter perdido...



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Aqualung my friend
Don't ya start away uneasy
You poor old sod
You see it's only me.

Do you still remember
December's foggy freeze
And the ice that clings on to your beard
Is screaming agony
And you snatch your rattling last breaths
With deep-sea diver sounds,
And the flowers bloom like
Madness in the spring."