domingo, 29 de abril de 2007

Angel

"Só descendo ao fundo do poço é que a gente recupera os tesouros da vida. É onde se tropeça que se acha o tesouro. A mesma caverna em que a gente tem medo de entrar acaba sendo a fonte do que estava procurando."
(Joseph Campbell)

"There's something cold and blank / Behind her smile / She's standing on an overpass / In a miracle mile / Cause you were from a perfect world / A world that threw me away today, today, today / To run away".
A música na cabeça, o doutor na sua frente. Oz não parecia muito empolgado com o que ele dizia. Queria sair dali.
- É importante você entender, Flávio.
- Oz. Meu nome é Oz.
- Seu nome não é Oz. Oz é um personagem. Você é uma pessoa de carne e osso. A vida não é um filme.
"- Eles te trocaram por 50 dólares e uma caixa de cerveja!
- Que tipo de cerveja?"
Lembrou da cena de um filme.
- O que é a vida então, doutor?
- Realidade. Uma realidade que você precisa aprender a aceitar e buscar um equilíbrio entre você e ela.
"- Acredito que vivemos em mundos diferentes."
- Você não é louco. Senão não estaria aqui conversando com você. Te encheria de remédio para te controlar e pronto!
"A pill to make you numb / A pill to make you dumb / A pill to make you anybody else / But all the drugs in this world / Won't save her from herself".
- O que difere suas pílulas da televisão, da moda, da vida em sociedade? Um remédio mais brando, talvez...
- Difícil conversar com você.
- Difícil acreditar no senhor.
- Quero te ver curado! É para isso que estou aqui. Faço isso por você...
- Então devolva o dinheiro da consulta para minha família. O senhor me quer curado ou feliz?
- Acha que será feliz sendo louco?
- O senhor acha que abrir mão de meus pensamentos me tornará são?
- Aff! Desisto!
O médico levantou-se bravo e saiu da sala. Oz pareceu não se importar muito. Ficou admirando uma mancha no canto da parede. Parecia ter a forma de um pássaro.

O cartão com o desenho da Fênix parecia atormentar o senhor F.. "Processado por não ser feliz, ora essa!" Lembrou-se de quando uma moça lhe deu aquele cartão, no restaurante onde almoçava todos os dias com o pessoal do escritório. Não lembra dela direito, mas lembra dela jogando o cartão sobre a mesa e dizendo "tudo que tem um início tem um fim". "Matrix! Filme velho. Eu gostava muito desses filmes..." Inseriu o cartão no telefone. Chamou. Atendeu. Uma gravação.
- Boa tarde, senhor F.. Cine Marabá. 19hs.
E desligou. "Será que o Grande Irmão está me vigiando?" - ironizou consigo mesmo. Pensou na possibilidade de ir até o centro. Não era mais como nos tempos de Hell City, mas também não era um lugar agradável. Lembrou que o Marabá não existia mais. Não como cinema. Era um grande teatro, reformado pela prefeitura. Mas pensou se aquilo não era um chamado à uma busca por algo... Não tinha mais idade para sagas. "Buscar o quê?" Lembrou-se do prazo de uma semana para tentar ser feliz.

Oz caminhou pelo saguão da clínica sem vontade. Sentou-se diante da televisão e ficou assistindo à novela das 7. Mudaram de canal. MTV.
- Putaqueopariu...
- Calma. Música é melhor que novela.
Virou-se. A garota da loja. Cabelos pretos acima dos ombros. Belos olhos castanhos. Com roupa de paciente.
- Que faz aqui?
- O mesmo que você. Estou de férias da realidade.
- Olha, aquele dia... Não queria ter saído correndo daquele jeito...
- Não esquenta. Você parecia ter encontrado algo para buscar. Mas seus olhos ainda são de alguém que não tem um propósito.
- Não creio que eles sirvam pra muita coisa... Me sinto tão estranho quando você estã perto... As palavras e os pensamentos ficam confusos e não consigo transformá-los em frases e ações...
- Precisa ser você mesmo. Eu prefiro assim.
- Estou tentando. "Ou sendo o Dr. Manhathan" - pensou.
- Não tente. Seja. Relaxe...
Prestou atenção no clipe na tv.
"I'm alone yeah I don't know if I can face the night / I'm in tears and the cryin that i do is for you / I want your love let's break the wall between us / Don't make it tough, I'll put away my pride / Enough's enough, I've suffered and I've seen the light"
- Droga.

Como um adolescente normal, Flávio tentava entender porque Val não queria mais saber dele. Não conseguia. Ficou lá, sentado, como copo de cerveja na mão e divagando sobre sua vida. Lembrou-se do passado.
O garotinho Flávio tentou esconder-se do pai. Mas o mesmo já estava de cinto empunho.
- Não faz nada na sala de aula é? Eu não quero um filho burro! Você tem que estudar pra ter uma vida melhor do que a minha!
O cinto cortou o ar em trajeto descendente.
- Cara, você só viaja!
- Hein?
Flávio saiu do transe.
- Liga não. Desde o primário que eu fico assim, em alfa, hehe.
- Pensando no quê? No vestibular? Na Val?
- Eu não sei se vou fazer vestibular... Não tenho nenhum objetivo, então pra que buscar algo que não sei se quero? E a Val já era. Ela encanou com as coisas de bruxa dela...
- Sei como é isso... Meu, pra que fazer faculdade? Quero mais é trampar e todo sábado sair pra beber e curtir rock'n'roll!!!
- Hahaha.
Flávio voltou pra Terra.

Oz procurou-se no espelho. Não encontrou nada. Voltou-se para o quarto da clínica. Alguém abre a porta. Ela.
- Fazendo o que aí sozinho? Exilado?
- Oi. Eu sou um eterno exilado. Solitário no meio da multidão. Pensei no que você disse. Mas não encontro nada...
- Tente ouvir a si mesmo. Tente pensar no que você gosta de fazer e no que você mais teme. Pode encontrar alguma coisa lá.
"Don't know what I'm gonna do about this feeling inside / Yes, it's true loneliness took me for a ride / Without your love, I'm nothin but a beggar / Without your love, a dog without a bone / What can I do, I'm sleepin in this bed alone".
- Você perde seu tempo comigo? Não deveria estar curando a si mesma?
- Estou fazendo isso.
Aquele olhar... Sentiu-se o mundo queimar. Os pensamentos ficaram lerdos e bobos novamente.

F. chegou ao Marabá às 18:57 hs. Olhou para a entrada sem saber o que fazer.
- Senhor F.?
Olhou para o lado. Um jovem atendente o chamava.
- Sim?
- Por aqui.
O garoto lhe guiou pela entrada e por corredores que ele não conhecia. Passou por trás do palco. Chegou uma porta. Reparou que o garoto tinha a mesma idade de seu filho. Sentiu saudades.
- Pode entrar.
- Por que disseram cine se agora é isso é um teatro?
- Isso importa? Ainda temos um cinema...
Entrou. Era um pequeno cinema, para um público bem pequeno. Um velho sentado bem no meio da platéia era a única pessoa ali. Aproximou-se.
- Venha, senhor F.. Sente-se aqui ao meu lado. Vai passar um filme muito bom hoje.
F. foi até ele e sentou-se ao seu lado. Reparou uma certa semelhança com o velho. Reparou também num livro que repousava em seu colo. "O Homem de Vidro".

"You're my angel come and save me tonight / You're my angel come and make it alright / come and save me tonight."
Oz a procurou por toda parte, mas não a encontrou. Perguntou para todos da clínica, mas ninguém sabia dela. Desesperou-se. Queria encontrá-la. Queria vê-la. Ela o fazia se sentir melhor. Confuso, mas bem melhor. Foi quando deu de cara como velho. Parecia familiar. Era o velho que perseguira na galeria.
- Enfim um objetivo, caro Oz?
- O quê?
Acordou.
Estava deitado em sua cama, no quarto que dividia com seu irmão. Não havia clínica, não havia ela. Sentiu-se frustrado. Pensou nelas. Sentiu-se sozinho.Pensou nele. Sentiu-se ausente. "Essa é a realidade." - pensou. Mas antes que se deprimisse como nos dias anteriores, olhou-se mais uma vez no espelho.
"Um propósito?" - pensou.

postado por Oz (The Dead) às 12:59 PM |

terça-feira, 24 de abril de 2007

Fade to Black

"Há sempre alguma loucura no amor. Mas há sempre um pouco de razão na loucura."
- Friedrich Nietzsche



"Life it seems,will fade away / Drifting further everyday / Getting lost within myself / Nothing matters no one else / I have lost the will to live / Simply nothing more to give / There is nothing more for me / Need the end to set me free"* cantava a música no som do carro, enquanto F. dirigia rumo à periferia daquela cidade infernal. Não gostava de ir para aqueles lados. Aliás, não gostava daquela cidade. Já estava farto dela, mas não conseguia se livrar. Seus prédios enormes, seu ar, seus pingüins, tudo lhe fazia sentir como se estivesse preso. Cumprindo pena numa penitenciária a céu aberto. Sentia-se como os crápulas portugueses que eram mandados para cá na época colonial. Queria muito sair dali, mas nunca saiu. Não se lembra porque. Ou não quer lembrar. "Morta" - pensou.
Chegou em frente a um conjunto de prédios populares e parou. Desceu do carro e caminhou até o portão. Olhou em volta e ficou indignado como as paredes eram encardidas, roupas estendidas nas janelas, crianças, muitas crianças. "E pensar que já morei num lugar assim...", confessou a si mesmo. Um homem gordo, com camisa semi aberta e fedendo a suor lhe recebeu na porta do prédio.
- Bom dia, senhor F.
- Bom dia. Como sabe quem eu sou?
- O senhor não é F. Almeida? Não veio pelo processo?
- Sou. Vim. Mas...
- Então entre. Quarto andar. Número 41B.
Sem pensar muito, F. subiu até o local indicado. Parecia não querer ser tocado pelas paredes do corredor. Chegou à porta e, antes que batesse, ela se abriu. Uma garota com metade da idade dele, bonita, apesar de mal cuidada. "Belos olhos." Vestia uma roupa simples, de quem põe para limpar a casa.
- Senhor F.? Entre.
O jeito como ela olhava não era bom. Não para ele. Faz tempo não via esse olhar. Ela o acompanhou até a sala de estar, onde um homem velho aguardava numa mesa e outras três pessoas estavam sentadas no sofá. Em frente a mesa havia uma cadeira e F. sentou-se ali.
- Senhor F. - começou o velho - O senhor está aqui porque está sendo processado. Sabe porque?
- Não. Na verdade, acho isso muito estranho. Que raios de Ministério da Verdade é esse? E isso aqui não me parece um tribunal! Vocês estão me causando constrangimentos por causa desse processo! E...
- Felicidade, senhor F.
- O quê?
- O senhor é feliz? Saberia me descrever o que é ser feliz?
- Hã? Bem... Eu tenho a minha família, uma esposa muito bonita, dois filhos ótimos, um bom emprego...
- Eu perguntei se o senhor é feliz.
- Sou. Não sou?...Acho que sim. Mas o que isso tem a ver com...
- O senhor está sendo processado porque fomos informados de que não é feliz. Isso é um crime muito grave para nós, porque não afeta só o senhor, como o senhor deve achar, mas sim toda a sociedade em volta do senhor. Um crime punido apenas com redenção.
F. parou por um segundo. Não acreditava naquilo. Então...
- Hahahahahahaha! Essa é boa. Cada uma. Processado por estar infeliz! Hehe. Caro senhor, o mundo é infeliz! Felicidade hoje está sujeita a responsabilidades, família, contas para pagar, carros e casas para comprar, posições sociais a conquistar! Não há espaço para felicidade no mundo moralista e capitalista que vivemos hoje! Francamente!
O velho ficou sério.
- Pois bem. O senhor tem uma semana para conseguir sua redenção ou...
- Ou o quê? Serei preso?
- Não. Será executado. Ou confinado. Executado por si mesmo ou confinado a uma vida cheia de angústia.
- ... Haha. ... Hahahaha! E eu perdendo meu tempo...
F. levantou-se e saiu, ainda a tempo de dar mais uma olhada em sua anfitriã.

"Things not what they used to be / Missing one inside of me / Deathly lost this can't be real / Cant stand this hell i feel / Emptiness is filling me / To the point of agony / Growing darkness taking dawn / I was me, but now he's gone"**, cantava a banda na televisão da lanchonete. Oz tentava não prestar atenção nela. Mas também parecia não ligar muito pro amigo ao lado.
- Cara. Acorda! Em que mundo você vive?
- Hein? Pô, desculpa. Às vezes eu saio de mim... Vamos?
- 'Bora. Vamos passar na Galeria? Só pra xeretar.
- Tudo bem.
Ambos pagaram e saíram. Caminharam pouco até chegar num prédio aberto, cheio de gente com roupas pretas. Oz andava como se estivesse em casa pelas ruas de Hell City. Pilantras, prostituas, trombadinhas, drogados, migrantes, trabalhadores, mendigos... Ele parecia não ligar. Não tinha medo, como a maioria de seus amigos. Mas isso não quer dizer que ele gostava.
Oz e o amigo subiram as escadas rolantes e passeavam pelas vitrines, cheias de cds, roupas, lojas de tatuagem. Oz parou diante de um poster enorme como desenho de uma casa sombria e uma bruxa toda de preto. "Às vezes sinto-me como se estivesse morrendo ao amanhecer", disse para si mesmo. Quando foi surpeendido por uma voz feminina.
- E às vezes chora por estar perdido e sozinho?
- Hein? - virou-se. Uma garota de pele alva, cabelos pretos acima dos ombros e roupa preta o observava. Possivelmente a vendedora da loja.
- Black Sabbath.
- Ah, sim. Adoro. Serve para não deixar os sonhos tornarem-se cinzas...
- O sonhos só se tornam cinzas se você deixar que os queimem. Ou se você os queimá-los.
- Fácil assim. Quando se é nova e não tem que se preocupar com contas, filhos...
- Ohhhh. Falou o "tiozão". Provavelmente tenho tantas responsabilidades quanto você, mas não deixo que elas controlem minha vida. Nós é que temos que controlar! Use suas emoções para pensar, não deixe que ela pensem por você.
- Se eu deixasse minha emoção agir, seria livre.
- Será? Medo também é uma emoção.
Aproveitou o breve silêncio e olhou bem para ela. Sentiu alguma coisa queimando. "A Fênix", ouviu dentro de sua cabeça. Distraiu-se olhando para o lado. Uma televisão com um aparelho de dvd passava um desenho em preto e branco estilo japonês. A garota do desenho. Voltou-se para a vendedora.
- O que foi? Nâo precisa ficar chateado comigo...
-Não, não é isso...
"Está acontecendo de novo", pensou. Ouviu a música numa outra loja. "No one but me can save myself, but it's too late. / now I can't think, think why I should even try."*** Sentiu-se estranho. Olhou para os lados. Lá estava ele. Sentado num banco. O velho com um livro na mão. "O Homem de Vidro."
- Ei, você!
Caminhou até o homem, mas ele se levantou e saiu, andando rápido. Caminhou até as escadas em caracol e subiu vertiginosamente. Oz tentou seguí-lo, mas quando chegou no andar de cima não havia mais ninguém lá. Ninguém. Pareceu confuso.
- Acorde, Flávio.
Alguém põe a mão em seu ombro.
Ele se vira e acorda. Um sonho? Olha em volta. Um quarto todo branco. Pijama branco. Um enfermeiro em sua frente com um copo e um comprimido.
- Hora do remédio.
Oz levanta-se e caminha rapidamente para a porta e o corredor.
- Flávio! Volte aqui! - gritou o enfermeiro.
Olhou pelo corredor. Avistou uma placa acima de uma porta. "Centro Médico de Reabilitação Psicológica e Psiquiatria." Confuso, confuso.
- O quê...
O enfermeiro ficou sereno, como se já compreendesse o que estava acontecendo.
- Sonhos, cara. Só sonhos. Venha. - pegou Oz pelo braço - Venha tomar seu remédio...

O jovem Flávio parecia desconfortável com aquilo, mas não ligava. Estava ao lado de Val e era isso que importava. Ela jogou as cartas no chão, enquanto todos já encontravam seus cantos de tanto beber e o rádio tocava . Ele pegou uma. Ela virou e olhou. Seu rosto ficou sério.
- Não vamos ficar juntos.
Flávio se surpeendeu.
- Há um outro destino para você.
- Isso é um teste? Pra saber se gosto de você ou não?
- Existe uma diferença entre um teste e uma escolha.
"Falling Off The Edge of World" começou a tocar no rádio.
Estranhamente, sentiu-se como se os céus ficassem nublados. Sentiu frio. Sentiu tudo escurecer.


* = "A vida parece esmorecer / Derivando longe a cada dia / Se perdendo dentro de mim mesmo / Nada importa, ninguém mais / Eu perdi o desejo de viver / Simplesmente nada mais a dar / Não há nada mais para mim / Preciso do fim para me libertar"
** = " As coisas não são como costumava ser / Falta algo dentro de mim / Mortalmente perdido, isto não pode ser real / Não posso suportar este inferno que sinto / O vazio me preenche / Ao ponto da agonia / As trevas crescem tomando a aurora / Eu era, eu mesmo / Mas agora ele se foi"
*** = " Ninguém além de mim pode me salvar, mas é tarde / Agora não posso pensar por que eu deveria ao menos tentar"
(Fade to Black - Metallica)

--> Falling Off The Edge Of World - Black Sabbath (youtube)

postado por Oz (The Dead) às 1:33 PM |

terça-feira, 17 de abril de 2007

Metropolis

Ok, ok. A semana foi longa e muito boa, com show do Aerosmith e Encontro Blogueiro em Sampa (fotos? textos? ali tem, ali ó! ali também! hehe), mas a verdade é que a Saga Zero nos espera. E o melhor (ou pior, sei lá) é que estou numa fase livre de sentimentos e consciência moral, em aí a mente fica sem limites (e sem noção). Insanidade? Loucura? Absurdo? Bem vindo ao Mundo de Oz! continuemos...


“Quando certa manhã Gregor Sansa acordou de sonhos intranqüilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso."
- Metamorfose (Franz Kafka).

Flávio parecia saber onde estava indo. Passou pela porta do bar sem se preocupar. Adolescentes não costuma se preocupar para onde vão... Mas foi surpreendido ao entrar e dar de cara com baratas. Eram homens,mas eram baratas! Bebiam, conversavam, gritavam. Aquele era o bar das baratas. Flávio achou estranho e quis correr, mas não sabia para onde. A porta atrás dele havia sumido. Olhou para o canto e viu uma pequena garotinha loira, de vestido azul antigo, chamá-lo. Seguiu-a e entrou por um corredor escuro cheio de quadros de velhos nas paredes.
- Não quero virar barata! - gritava para si mesmo.
A garotinha puxou o garoto cabeludo pelo pulso até fazê-lo passar por uma porta minúscula. Lá, ela havia sumido e ele se viu numa floresta. Um estranho gato numa árvore parecia sumir e ressurgir vez ou outra.
- Para onde vou? - perguntou ao gato.
- Para onde quer ir? - miou, serenamente.
- Qualquer lugar fora daqui.
- Então qualquer caminho serve... - e sumiu no ar.
Um estranho estrondo foi ouvido e o garoto sabia o que significava. De repente, no meio da mata, surgiu Mordenkai e mais dois lacaios, um dragão negro e uma bruxa.
- Não, vocês não vão me pegar! - saiu em disparada, até cair sobre um enorme precipício.
E caiu, e caiu... Até acordar.

"The smile of dawn / Arrived early May / She carried a gift from her home / The night shed a tear / To tell her of fear / And of sorrow and pain / She'll never outgrow" - cantava a música no rádio do carro. Flávio despertou abruptamente e logo percebeu que estava com seus amigos no velho Opala, indo beber e ouvir uma banda que tocava covers de heavy metal.
- Cara, já dormindo? A noite nem começou!
- Sei lá. Esquisito...
- Hora de agitar, meu. Chegamos!
O som ensurdecedor e semi-desafinado. Todos de preto. Cabelos compridos. Ela.
" There's no more freedom / The both of you will be confined to this mind".
Os olhos verdes, revelados por entre os cabelos cacheados castanhos e o semblante misterioso e sensual o hipnotizavam.
- Cara, essa é a Val. Val, Flávio. Lá de Santo André.
Ela o cortou ao meio com um olhar.
- Oi. - disse, inseguro.
- Oi, Ozzy.
- ...
- Ela é bruxa, sabia? - disse um amigo.

F. levantou-se da poltrona e foi até o bar da sala. Pegou uma garrafa de whisky e a olhou antes de abrí-la. Lembrou-se de quando só bebia cerveja. Whiski era pra caras muito mais civilizados que ele. "Os pingüins", costumava dizer. "Eu virei um pingüim", disse para si mesmo. Ligou o rádio. Pôs numa rádio que não mais costumava ouvir. " I was told there's a miracle for each day that I try / I was told there's a new love that's born for each one that has died / I was told there'd be no one to call on when I feel alone and afraid / I was told if you dream of the next world / You'll find yourself swimming in a lake of fire", cantava a música. Lembrou de quando a matou. Aquela não seria uma noite fácil...
Caminhou até a cozinha e abriu uma lata de cerveja. Voltou para a sala, tirou o blazer e abriu a maleta do escritório. Pegou um memorando que havia recebido, leu e jogou-o na mesa. Triste.
Foi até a varanda e viu o enorme cartaz do novo filme de Samuel Lang. Sentiu-se estranho. Sentou-se no sofá e ligou a TV. Um filme. "Me lembro desse filme", pensou. "Me lembro dessa cena. Me lembro dela..." Chorou por dentro.
Olhou para o teto. O telefone tocou. Atendeu.
- Sr. F.?
- Sim?
- Venha amanhã para a audiência de seu processo.
- Mas...
- Amanhã.
Desligou.

Oz parecia perdido pelas galerias de Hell City. Mas não estava. Ele conhecia bem o lugar. Estava mesmo era perdido em si mesmo, como quem passa por um momento de extrema decisão.
- Ainda pensando na vida? - ouviu.
Virou-se. Era seu amigo hippie, com seus cabelos desgrenhados até os ombros, calça jeans velha e camiseta colorida.
- Você sempre aparece do nada...
- Nada é um infinito alguma coisa, cara. Há muito mais no nada do que em muitas vidas... E a sua, Syd. Mais ou tão vazia quanto um nada?
- Como sempre...
Um velho passou por eles e o olhou de forma estranha. Trazia na mão um livro. "O Homem de vidro", Oz conseguiu ler. O hippie riu.
- Cara, adoro essas coisas...
- Que coisas?
- Olha, Syd. Sei que é difícil controlar essa loucura toda, mas você sabe que vida normal é para pessoas normais.
- É, eu sei. O amor não pode nos tornar normais?
- Já imaginou se Da Vinci tivesse se apaixonado? O amor torna os "não-normais" prisioneiros, Syd.
Caminharam para a estação do metrô.
- Amar não é só amar. É dar. É morrer um pouco. Alguns não conseguem morrer... precisam estar vivos, mesmo que aparentemente mortos. E para aqueles que infringem essa lei, um longo processo os aguarda.
- Então não temos escolhas, é isso?
- Questões e respostas irão mudar alguma coisa na sua vida?
- Não, acho que não...
Desceram as escadas. Foram para a plataforma. Oz reparou numa garota de cabelos coloridos lendo uma revista. Algo sobre blogs... O hippie percebeu a distração do amigo.
- Contos do Blogueiro Negro. É legal. Já leu?
- Hã? Não, acho que não... Nem blogs estão me interessando mais ultimamente...
- " The city's cold blood teaches us to survive. Just keep my heart in your eyes and we'll stay alive" - cantarolou.
- Hein?
- Esquece. Cara, você sabe que a morte não é para sempre. O velho morreu, mas é preciso ressuscitar, ressurgir das cinzas, como uma Fênix! Não se começa de novo fugindo, indo para longe, mas queimando tudo e construindo novamente!
- ...
- Força, Syd!
O hippie entrou no metrô. A porta se fechou e ele sumiu junto com o trem. Oz ficou lá parado, tomando vento no rosto. Do outro lado, na parede do túnel, um outdoor dizia " Love is the dance of eternity".

O jovem Flávio parecia cansado e chateado. Afinal, não era todo dia que se era expulso de casa.
- Ou uma vida normal ou essa sua! - ouviu antes de decidir sair. Mal sabia que ainda voltaria a ser escravo...
Sentou-se na calçada. Pensou nela e em porque não deu certo. Ela havia lhe enfeitiçado com seus olhos pesados e sensuais. E, como parte do feitiço, ele não pode ser ele mesmo. Não pode agradá-la como queria, não se fez como deveria fazer para conquistá-la. Outro o fez. Um normal. "Maldita vida medíocre", pensou. Não conseguia ser um morto no palácio, com direito a uma vida normal, mas boa, com sua família, aqueles que o amam. Mas também não era bom o suficiente para uma vida diferente... Se é que aquela vida era realmente diferente... Às vezes achava que aqueles que se achavam diferentes eram apenas escravos iludidos...
Lembrou da carta que havia escrito. Besteira.
- Maldita vida medíocre!
Ligou o walkman. Dream On. Sentiu-se começar a queimar. "Besteira". Mudou de estação. Doctor, doctor. "Bem melhor..."
Levantou-se, fez sinal para o ônibus parar, pegou sua mochila e se foi...


Extras:
--> Memorando para o Sr. F.
--> Carta de Flávio
--> UFO - Doctor Doctor
--> Contos do Blogueiro Negro

postado por Oz (The Dead) às 4:30 PM |

quinta-feira, 5 de abril de 2007

Time

*este post é parte integrante da Saga Zero e o primeiro de 10 posts sequenciais.
**AVISO: post lisérgico. por favor, deixem a lógica do lado de fora e abram suas mentes. a viagem já vai começar...

F. parecia confortavelmente entorpecido. Sentado na poltrona da sala, olhava para o nada através da janela. Na tv, ilusões que nada interferiam em seu processo. Parecia preocupado, triste. Baixou os olhos para o folheto que tinha nas mãos. Um Fênix estampada no pedaço de papel parecia lhe dizer algo. Voltou a olhar para o nada. O jornal na TV anunciava o sucesso do filme baseado nos livros de Samuel Lang. "Deveria ter me tornado relojoeiro", pensou.

Os anos 90 não pareciam ser tão empolgantes quanto o final dos 60, pensou o jovem Flávio. Após uma caminhada sufocante até a estação, o garoto pegou o trem. Observava as pessoas à sua volta. Trabalhadores, mulheres, velhos, crianças. Todos pobres, como ele. Olhou para a camiseta do Black Sabbath que vestia. "Por que a vida é tão medíocre para a maioria?" pensou. "E como elas aceitam isso? Eu não suportaria" - passou-lhe pela cabeça. Reparou quem alguém o observara do fundo do vagão. Era um velho. Trazia na mão um livro velho. "O Homem de Vidro", era o título. Alguém entrou com um walkman no último volume. O garoto ainda não conhecia a música. O velho continuava lhe encarando. "Ticking away the moments that make up a dull day. You fritter and waste the hours in an offhand way." Flávio tenta relaxar. Na sua frente, um cartaz de propaganda de planos de saúde. Uma família feliz e os dizeres "Nós cuidamos bem de sua família para que você não tenha que se preocupar." " Kicking around on a piece of ground in your home town." O velho desembarca e fica parado na plataforma, fitando Flávio incansavelmente. O garoto lhe acha familiar, mas tem quase certeza de que não o conhece. O trem segue viagem. " Waiting for soemone or something to show you the way." O garoto relaxa. "Hoje vai ser foda! Eu sei. Ela estará lá..." Adormece.

- O que você deseja sempre estará lá. Mas será que "lá" é melhor do que "aqui"?
Oz saiu do transe.
- Hein?
- Pô, cara. Em que planeta você estava? Tava te falando sobre o lance da facul. É por isso que não faço. Já tô velho e não sei se 2012 estarei melhor do que agora, em 2007. Prefiro viver o hoje!
- Ah, sim. Foi Jesus quem disse.
- Quê?
Oz tomou o último gole do café expresso. Hora de voltar ao trabalho. Seu amigo o acompanhou.
- Tá na Bíblia isso. "Para cada dia o seu cuidado e Deus se encarrega do resto." Algo assim...
Caminhavam pela calçada. "Preciso parar de tomar tanto café" - Oz pensou.
- Você tá virando crente? O roqueiro filósofo acreditando na Bíblia? Hahaha.
- Minha fé é maior que rituais religiosos doutrinados pelo homem social. E a sua?
Pararam no semáforo para atravessar.
- Agora tá falando como um daqueles sindicalistas panacas. Eu não tenho religião.
- Todo mundo tem.
- Eu não tenho. E do que você tá falando? Você também não tem!
Oz repara num outdoor com a propaganda de um banco. "Felicidade é poder viver bem sem se preocupar." diz o cartaz.
- Pense bem, cara. Você não sai todos os dias para trabalhar e fazer a mesma coisa, como se houvesse um roteiro pré-estabelecido?
- Sim, e daí?
Eles atravessam. Passam em frente a uma banca de cds piratas. " You are young and life is long and there is time to kill today. And then one day you find ten years have got behind you."
- Um ritual. Seguido sem se perguntar porque. E você carrega certas crenças quanto à vida, não carrega? "Preciso trabalhar para pagar as contas que criei", "os poderosos mandam e desmandam na gente", "vou na academia pra melhorar meu corpo", essas coisas?
- Sim, e daí?
- Isso é religião, cara. Um sistema. Uma ilusão posta diante de seus olhos para que você não veja que somos apenas "baterias". Todo mundo segue um, mesmo que não queria. E sabe o que é pior?
Oz olha para o céu de um calor escaldante.
- Citando Matrix agora? O quê? O que é pior?
- O Sol não dá a mínima para seus rituais.

O jovem Flávio não parecia muito preocupado. A sala com três paredes bem sujas, com formato triangular e um cheiro horrível parecia só um ulgar feio. Não havia medo ali.
Uma mulher sem roupa entrou pela parede. Não havia portas. Ela era bonita, quente. Flávio se empolgou, a abraçou, a beijou. Queria transar com ela. A achou que era isso que eles fariam agora. Mas uma risada sinistra e grave cobriu o ambiente. O garoto pareceu assustado no ínicio. Mas ele já conhecia aquela voz. A mulher se dissolveu e as paredes viraram água. O garoto a atravessou e viu-se num rio, próximo a uma cachoeira. Um bizarro ser com cerca de 4 metros de altura surgiu do meio do mato. Tinha os olhos vermelhos e chifres. Parecia mal. E Era.
- Rindo do que, Mordenkai?
- Não é difícil de te enganar - disse o monstro, com uma voz grave e fúnebre. - Um adolescente é sempre um adolescente.
- Um demônio é sempre um demônio.
- Não. Aí é que você se engana. Um demônio nem sempre é um demônio, hehe. Há coisas dentro da alma e da mente humana que são mais assustadores do que demônios, garoto.
O bicho levantou um machado enorme e preparou-se para golpear Flávio. O garoto levantou-se e parecia levitar. Começou a girar no ar. O cenário começou a mudar. Podia ouvir a voz do demônio do lado de fora do redemoinho:
- Fugir não resolve, gafanhoto. Se não pode com um demônio como eu, poderá consigo mesmo?

Flávio acordou. O maquinista avisa que aquela era a estação onde ele teria que descer. "Sonhos", pensou. "Malditos sonhos! Não posso nem cochilar..." Levantou-se e saiu do trem. Alguns amigos seus já estavam lá, lhe esperando.
- E aí, cara? 'Bora pro som! Quer vinho?
O amigo estende a garrafa. Flávio dá um gole. Olha para o lado e vê o bilheteiro da estação assistindo uma pequena tv.
- Outra reprise do Mágico de Oz... Alguém já pensou se ela morreu e foi pro inferno? Como num eterno pesadelo?
- Hein?
- Nada, nada. Pensando alto. Vambora!
E Flávio perambula pelas ruas com seus amigos até o bar.


postado por Oz (The Dead) às 1:31 PM |

segunda-feira, 2 de abril de 2007

zo fo edis krad


"Eu estive louco durante muitos anos , malditos anos, estive em cima dos limites dos yonks, estive trabalhando pães fora para faixas... "

"Eu sempre estive louco, eu sei que eu estive louco, como a maioria de nós... muito duro explicar por que você está louco, até mesmo,se você não está louco... "

TIM HUNTER: - Eu tenho um pai, sabe... Ele é legal, mas, sei lá... E aí apareceu esse outro, que vira falcão...Um cara disse q ele é meu pai verdadeiro... Agora eu não sei... Não sei a qual deles pertenço...

MORTE: - Pertence? Aaahhh... Vocês, pessoas! De onde tiram essas idéias? Tim, hereditariedade é uma coisa, identidade é outra... Se vocês pertencem a alguém, só pode ser a si mesmos. E olha que tem gente q nem isso consegue.

TIM: - Ah, então eu sou burro! Nós somos burros. Tá legal.

MORTE: - Eu não acho q vcs são burros... Só confusos.

TIM: - Pra vc é fácil falar.

MORTE: - É.

TIM: - Vc num tem q se preocupar com nada.

MORTE: - Não.

TIM: - Ninguém pode obrigar vc a fazer o q não quer. Vc nunca se perde. Sabe o q está fazendo e coisa e tal. E tem uma missão esquisita... Você é tão absurdamente feliz.

MORTE: - Missão esquisita. Essa foi boa. Tim? Tudo o q vc disse é verdade.

time.

postado por Oz (The Dead) às 6:57 PM |

domingo, 1 de abril de 2007

Apocalypse Now!

Se perdeu.
Arremessado contra a parede da memória pelos trogloditas da vida, ficou sem ar. Parou de tentar entender e tentou continuar vivo. Como K., viu-se julgado por algo que não sabia o que era. Fora condenado e agora cumpria a pena. Fechado num quarto, não queria mais sair. "Eles estão lá fora, me esperando!" Teve medo. Não queria o processo Ludovico, não queria enlouquecer, mas não tinha mais certeza da sua sanidade. Gritou pelo nome dela, para que ela o salvasse, mas estava cada vez mais distante dela e ela não parecia mais se importar. E os juízes que lhe trouxeram ao mundo faziam questão de não lhe dar trégua, de lembrá-lo de sua condição, sempre. Tentou obter alguma luz. Buscou no fundo imagens do filho que amava e se sentiu melhor. Mas aquilo era efêmero. O apocalipse se fazia presente o tempo todo, não havia muito espaço para luzes. O torturador do Grande Irmão não era um homem, mas algo que não era palpável, tornando ainda mais difícil de suportar tamanha dor. Chorou. Estava velho e não aguentava mais tanta pressão. "Ou me entrego, ou vou virar serei morto" - pensou. Dormia. Era seu único refúgio. Sonhos diluídos em memórias e sentimentos. Amor. Idéias. Vida. Mas o sonho terminava, e o apocalipse voltava...
Flávio acordou e viu-se transformado numa barata...
"Oz! Cadê você?"
...

postado por Oz (The Dead) às 6:14 AM |





*melhor visualizado com resolução 1024 x 768 ou superior.

Perfil

Dead Oz é um zumbi filósofo alienado, como tantos outros que vagam pela Terra, à procura da ressurreição, comendo, bebendo, trabalhando, perambulando entre pingüins e tendo a energia drenada por alieníginas conspiradores pela Internet. Um maluco tentando recuperar um pouco da fantasia que todo mundo parece ter perdido...


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visitas

"Sitting on a park bench
Eyeing little girls with bad intent.
Snot is running down his nose
Greasy fingers smearing shabby clothes.
Hey aqualung!
Drying in the cold sun
Watching as the frilly panties run.
Hey aqualung!
Feeling like a dead duck
Spitting out pieces of his broken luck.

Sun streaking cold
An old man wandering lonely.
Taking time
The only way he knows.
Leg hurting bad,
As he bends to pick a dog-end
Goes down to the park and
Warms his feet.
Feeling alone
The army's up the road
Salvation a la mode and
A cup of tea.
Aqualung my friend
Don't ya start away uneasy
You poor old sod
You see it's only me.

Do you still remember
December's foggy freeze
And the ice that clings on to your beard
Is screaming agony
And you snatch your rattling last breaths
With deep-sea diver sounds,
And the flowers bloom like
Madness in the spring."